terça-feira, 21 de dezembro de 2010

hoje.

Hoje sentei-me debaixo da lua, observei o ritmo frenético da chuva que caía e o som melódico dos passos de alguém que, muito suavemente, corria ao longo de nada. Dedilhei as linhas do papel e, de um modo algo intenso, manuseei a caneta, e decidi-me por começar a expelir cada memória que achei necessária voltar a reviver.
Todas as minhas pequenas lembranças estavam guardadas, há talvez, milénios de dias na minha mente e, defacto, precisava delas, não me quis esquecer de tudo o que lembrei. Não pude, eu não queria. Mas, hoje, quando quis descer até ao mais profundo de tudo, senti-me vazia.
Aquilo que eu gostaria de lembrar, esvaiu-se numa nostalgia quase sufocante. Eu queria, mas o meu passado, não estava lá. Eu percorri cada corredor da minha mente, dei passos largos, outros nem tanto assim, mas, de uma forma ou de outra, estava vazia.
Ouvia os meus passos intuitivos fazerem ruidos silenciosos no pavimento, e, naquele momento, gostaria de ter sequer, uma memória nada importante, onde me pudesse deitar, tentar esquecer que não posso mais relembrar.
A minha mente. Um lugar onde achava ter refugiado todos os meus versos, as poesias, os momentos mais solenes, ou talvez os mais alegres, mas não. A minha mente era um lugar vazio, superficial e amargoso.
Mas de algum modo, sabia que cada recordação não podia ter desaparecido do meu corpo, simplesmente porque não podia. Porque cada momento, era uma responsabilidade, um afecto suave ao qual eu havia entregado mil e um dos meus tesouros, e soube, desde o inicio, que o meu corpo jamais me traíria deste modo.
Não me levaria tudo, cada constituinte meu. Não me levaria metade do que sou, não podia, mas levou. Talvez custasse a acreditar, porque ainda era frágil, naquela altura para conseguir suportar a dor de imacular o meu passado algures, mas após a dor, aceitei.
Procurei a porta, uma saída, algo que não me fizesse ter de retornar ali, e que de algum modo, me permitisse sair, respirar. Eu estava sozinha, ali, no meio de mim, de tudo aquilo que eu achava poder ter sido e que queria ter reencontrado.
Mais uma vez, percorri sozinha o meu corpo. Caminhei, ao lado de ninguém, apenas eu. Um corpo vazio, quase morto, numa empatia triste. Ao longo da minha vida, pensei que era algo mais do que um poço sem fundo; algo mais que uma caixa sem algo que lembrar. Julgava ser um castelo quase indestrutivel, onde cada arma fosse algo que eu retivesse comigo para sempre. Mas não era, nem sou. Vazio.
E quando estava prestes a sair de todo o lado, a dispersar-me do nada, olhei para o meu coração. Observei-o. Batia num ritmo quase invulgar. Rápido, mas sereno. Voltei a fechar a porta e inclinei-me para o meu peito.
Logo que me deitei sobre ele, envolvendo-o com os braços, querendo-o fazer sentir-se seguro e protegido, observei o meu passado, observei todas as minhas memórias voarem por cima de mim. Cada lembrança, cada recordação de tudo aquilo que fui, tudo aquilo que fez parte das cartas que escrevi.
Era eu. Pequenina, adulta, alguém mais do que alguém.
Alguém que apenas podia ser quase ninguém, mas, era feliz.



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